segunda-feira, 9 de junho de 2014

A Cafeta das Caronas



"Liberdade é uma palavra que o sonho humano alimenta, não há ninguém que explique e ninguém que não entenda."
Cecília Meireles


Ando com essa mania de citação, mas, convenhamos, tem coisas que só a poesia explica. Então, permitam-me abusar desse artifício.

Faz algum tempo que ando me aventurando nas atividades outdoors, mas esse ano, em especial, me surpreendeu com novas experiências. Meu espírito aventureiro está mais intenso. Essa ânsia de viver de me deixa inquieta, faz com que eu sonhe cada dia mais em conhecer "pagos distantes e terras longínquas". E os sonhos existem para tornar-se realidade.

Causo I - A Cafeta das Caronas

Era uma vez, duas doidas que não assistem o "Programa do Datena" e que, portanto, não sabem dos perigos do mundo. Essas meninas resolveram borboletiar no feriado de carnaval, viajando por algumas cidades do sul do Brasil. Como boas estudantes, não tinham dinheiro. Muito menos carro. "Malemal" tinham uma barraca e dois sacos de dormir emprestados. Porém, isso não seria um empecilho! A mais velha da dupla, gênia do mau, eu (mas que poderia ser a Mari, que é outra delinquente juvenil) teve uma ideia brilhante: vamos pegar carona de caminhoneiro \o/ Porém, isso era muito arriscado! Então, topamos na hora, tomando todas as precauções para que nossas mães não descobrissem. (Inclusive, Deus, queria pedir, por favor, não deixe minha mãe ler isso aqui. Obrigada. Amém.)

O plano tava bolado. Mochila pronta. Comida pra um dos cinco dias. Equipamentos. Roupas de verão pra Mari (que ainda não se ligou que tá no sul e que aqui faz frio). Contactos contactados. E, o mais importante, a nossa plaquinha:


A prova do crime.

Pegamos o busão que nos deixou na faixa de São Sepé, onde esperamos por algum caminhoneiro solidário, que nos levaria até Caçapava. Isso dever ter demorado entre 25 e 36 segundos. (Isso mesmo. Não é à toa que recebi a alcunha de Cafeta das Caronas). Pegamos carona e não fomos assassinadas. O moço, diferente do que as mães imaginam, era uma ótima pessoa, dono de uma simpatia ímpar. E, como o universo é nosso amigo, fomos presentadas com um por do sol maravilhoso na boleia do caminhão.


Por do sol na boleia.

Em Caçapava, ficamos na casa do nosso amigo, Vini, onde fomos maravilhosamente bem recebidas por ele e sua família. A noite rendeu boas risadas, histórias, poesia e música. Em outras palavras, não poderia ter sido melhor. No dia seguinte, fomos escalar no Galpão de Pedra, onde o Seu Manoel foi apresentado à "Gringa nova". Escalamos três cordadas da pedra do leão, rumo ao cume. Fomos embora cedo, por conta da carona que nos levaria à Minas. Embora nossa estada no galpão tenha sido rápida, valeu muito. Caçapava é linda demais

Seguimos rumo à Minas do Camaquã, de carona com o Spode, que nos contou ótimas histórias e fez crescer ainda mais a minha vontade de ter um fusca! Ficamos sozinhas no acampamento, mas, mesmo assim, demos muitas risadas. Nessa noite, eu descobri que, além de completamente fora da casinha, a Mari também tem medo de escuro. (Não vou nem contar das pérolas que ouvi naquela noite, se não, não acabo esse causo nunca!!) Logo a galera começou a chegar e, de manhã, o camping já tava povoado de bons amigos - como a Analu, Osni, Fabiano, Laura e Marcelo e mais uma galera. A escalada em Minas não rendeu muito, ao menos pra mim. A melhor parte ainda estava por vir...

Hay que escalar quinto grau, pero sin tremer la pernita jamás!!

Eu, apanhando em top.

Eu, Mari, Laura e Marcelo. A galera viciou no slack.

Depois de três dias em Minas, fomos à Bagé, de carona com a Laura e O Marcelo. Foi a nossa primeira vez - minha e da Mari - no setor. E CA-RA-LHO! É demais! Confesso que estava um pouco chateada com o meu desempenho na escalada em Minas, mas o meu primeiro cume em Bagé - mais precisamente no pico do morcego - fez com que eu entendesse porque amo tanto isso. Não consigo descrever a emoção de chegar no alto daquele lugar incrível. Olhar para os lados e só ver beleza. Bagé me arrancou muitos suspiros.

Assinamos o livro cume e folheamos algumas páginas, numas delas escrito: "prefiro um segundo aqui, do que a eternidade na vida das cidades." De fato!

Marcelo, Laura, a pirca, eu e a Mari, no Pico do Morcelo.


Mari, Zi Perna Oca, eu, Tiago, Fabiano, Laura e Marcelo, do ladinho da via da canaleta.

Minha parrrceira de viagem, Mari.

Ficamos dois dias em Bagé e nosso retorno, obviamente, foi de carona. Só que né... era carnaval, pô! Então antes de voltarmos à Santa Maria,  fomos pular carnaval em Caçapava. Novamenteos nos hospedamosna casa do Vini, que nos acompanhou na farra, junto com o Guilherme, seu irmão. Diversão garantida! Na manhã seguinte, fomos à BR, esperar por outro caminhoneiro solidário afim de dar carona a duas pobres estudantes. Deve vez, demorou uns cinco minutos. Uma eternidade!, não fomos assassinadas e o moço era muito legal. Mães, se um dia vocês souberem, fiquem tranquilas que deu tudo certo.

Eu, Vini, Mari e moço que eu não sei quem é, no carnaval de Caçapava.

Há algum tempo, li uma reportagem sobre a artista plástica brasileira, Aline Campbell, que viajou por 30 cidades, em 14 países da Europa, sem dinheiro. O projeto tinha o nome de Portas Abertas. Segundo Aline, “a partir do momento em que você se permite abrir para o mundo, sua vida se torna mais rica de conhecimento e aprendizado.” Ela tinha três objetivos: 1) extrair a bondade das pessoas, 2) mostrar ao mundo que os seres humanos são generosos por natureza e 3) demonstrar que certas situações não são tão perigosas quanto pensamos. Nossa viagem não teve pretensão em provar nada, mas certamente a Aline nos serviu de inspiração e sentimos na prática o que ela quis transmitir. Obrigada a todos que colaboraram conosco, em especial ao Vini e sua família, pela hospedagem; à Laura e o Marcelo, por nos apresentar Bagé, dar carona e ainda dividir a comida (essas gurias só dão prejuízo!); ao Spode, pela carona e pelos causos; ao Seu Álvaro, por impedir que a Mari tivesse uma hipotermia, aos caminhoneiros, pela carona e aos demais pela parceria. Obrigada também à Mari, por entrar nessa comigo.

"A partir do momento que você está certo de suas crenças e com os outros compartilha bondade, o bom chega a você como retorno."
Aline Campbell

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